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Figma AI na prática: do briefing ao wireframe navegável

Anderson Ventura6 min de leitura

Chegou a onda das ferramentas de IA dentro do Figma que geram uma interface a partir de um texto. A demonstração é impressionante: você escreve "tela de checkout de um app de comida" e aparece uma tela pronta. A pergunta honesta é: isso serve pra trabalho real ou é só truque de palco? Depois de usar bastante, minha resposta é "serve — para uma parte específica do processo, e você precisa saber qual".

Onde a IA no Figma realmente ajuda

O ganho não é "design pronto". É vencer a tela em branco. A parte mais lenta de um wireframe costuma ser começar: montar a estrutura base, jogar os blocos, criar placeholders de conteúdo. A IA faz esse rascunho inicial em segundos, e aí você tem algo para reagir — e reagir é muito mais rápido do que criar do zero.

Outros usos que economizam tempo de verdade:

  • Preencher com conteúdo realista em vez de "Lorem ipsum". Nomes, preços, textos plausíveis deixam o wireframe muito mais útil para validar.
  • Gerar variações de um mesmo bloco (três estilos de card, duas versões de header) para comparar rápido.
  • Renomear e organizar camadas — trabalho chato que a IA faz sem reclamar.
  • Escrever a primeira versão do microcopy de estados vazios, mensagens de erro e confirmações. Raramente é o texto final, mas quebra a inércia.

Um detalhe sobre o conteúdo realista que parece bobo e não é: wireframe com "Lorem ipsum" esconde problema de layout. Nome de produto de verdade tem 4 ou 42 caracteres, preço tem casa decimal, endereço quebra em duas linhas. Metade dos ajustes que você faria depois, na revisão com o dev, aparece logo no rascunho se o conteúdo for plausível.

Onde ela atrapalha (e você precisa assumir o controle)

A IA não conhece o seu usuário, seu design system nem a regra de negócio. Então ela erra exatamente onde importa:

A IA gera o que é comum, não o que é certo para o seu caso. Comum e certo raramente são a mesma coisa.
  • Hierarquia: ela costuma dar peso igual a tudo. Todo botão vira primário, todo título tem o mesmo tamanho. A decisão do que é primário fica com você.
  • Consistência com o design system: a tela gerada quase nunca usa seus componentes. Reconstruir com os seus tokens é parte do trabalho.
  • Acessibilidade: contraste e tamanho de alvo de toque não são a prioridade dela. Confira sempre.
  • Estados: ela desenha o caso feliz. Carregando, vazio, erro, offline, lista com 200 itens — nada disso aparece se você não pedir explicitamente.

O último item é o mais caro. Uma tela sem estado de erro definido vira decisão do desenvolvedor às 18h de uma sexta-feira, e aí você herda um alerta genérico que não combina com nada. Se a IA te deu o caso feliz em cinco segundos, use o tempo que ela economizou justamente para desenhar os outros quatro estados.

Um fluxo honesto, do briefing ao protótipo

  1. Escreva o briefing como se fosse para um estagiário. "Tela de checkout" gera lixo. "Tela de checkout com resumo do pedido, cupom, escolha de pagamento e um único botão primário de confirmar" gera algo aproveitável. Especificidade no texto vira qualidade na tela.
  2. Gere o rascunho e trate como descartável. O primeiro resultado é matéria-prima, não entrega. Fique com a estrutura, jogue fora o estilo.
  3. Reconstrua com o seu design system. Troque os elementos genéricos pelos seus componentes reais. É aqui que o wireframe vira algo que o time pode usar.
  4. Desenhe os estados que faltam — vazio, carregando, erro, e o caso com conteúdo longo demais.
  5. Preencha com conteúdo realista (aí a IA volta a ajudar) e revise hierarquia e acessibilidade à mão.
  6. Ligue as telas em um protótipo navegável para testar o fluxo, não só a tela isolada. Boa parte dos problemas só aparece quando você clica de uma tela para a outra.

Repare que a IA aparece nos passos 2 e 5, e some no meio. Isso não é acaso: ela é boa nas pontas — no rascunho bruto e no preenchimento mecânico — e ruim no miolo, que é onde mora a decisão de design.

Como escrever um briefing que gera algo aproveitável

Se tem uma habilidade que vale desenvolver aqui, é essa. Um briefing útil para IA tem quatro partes:

  • O que é a tela e em que ponto do fluxo o usuário chega nela.
  • Os blocos obrigatórios, na ordem de importância. A ordem que você escreve influencia o peso visual que ela dá.
  • A ação primária — uma só. Diga qual é, explicitamente, senão você recebe três botões disputando.
  • As restrições: mobile primeiro, tom sóbrio, sem ilustração, densidade alta.

É praticamente o mesmo briefing que você daria a um designer júnior. A diferença é que o júnior pergunta quando algo não faz sentido, e a IA não — ela preenche a lacuna com o palpite mais comum e segue em frente com toda a confiança do mundo.

O erro clássico: entregar o que a IA cuspiu

Vi gente pegar a tela gerada, ajustar cor e mandar pro dev. O resultado é uma interface que parece design mas não resolve o problema: botões competindo por atenção, fluxo que ignora o caso de erro, nada alinhado ao resto do produto. A IA acelera o começo; ela não substitui a decisão de design. Confundir as duas coisas é o caminho mais rápido para um produto genérico.

Existe um custo menos óbvio nisso: o viés de ancoragem. Depois que você viu uma tela pronta, fica mais difícil imaginar uma solução diferente. O rascunho da IA não é neutro — ele empurra o seu pensamento para o layout mais convencional possível. Por isso vale um hábito simples: antes de gerar qualquer coisa, rabisque trinta segundos no papel. Não precisa ficar bom. Precisa existir antes, para você ter com o que comparar.

E quando o resultado é bom demais pra ser verdade?

Desconfie de tela gerada que parece perfeita. Normalmente ela é perfeita porque ignorou uma restrição real: um campo obrigatório que não cabe, uma regra de negócio que quebra o layout limpo, o aviso legal que precisa aparecer. Beleza em wireframe costuma ser sinal de que algo foi omitido, não de que o problema foi resolvido com elegância.

O teste que uso é direto: pego a tela gerada e tento preenchê-la com o caso mais feio que o produto tem — o pedido com 14 itens, o nome com acento e 60 caracteres, o cupom que não aplica. Se o layout aguenta, é um bom começo. Se desmonta, ele estava desenhando um produto que não é o meu.

Conclusão

Use a IA do Figma para o que ela é boa: matar a tela em branco, gerar variações e preencher conteúdo. Assuma o controle no que importa: hierarquia, consistência com o design system, estados e acessibilidade. O designer continua sendo quem decide — a IA só faz a decisão chegar mais rápido à mesa. E chegar rápido só é vantagem se a decisão continuar sendo sua.

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